O Nascimento do SINJAC
Pitter Lucena
Há noites que não acontecem apenas no relógio. Acontecem na carne da cidade. Acontecem na memória coletiva como uma lâmpada acesa no corredor do tempo, impedindo que o passado vire escuridão completa. E 21 de outubro de 1988, em Rio Branco, foi exatamente isso: uma noite em que a imprensa acreana — reunida num auditório da Eletroacre, na Rua Valério Magalhães, 226, no Bosque — decidiu que a palavra precisava de uma casa mais sólida, de um teto menos frágil, de uma trincheira civil para continuar existindo sem pedir licença ao medo.
Era 1988. O Brasil ainda tinha cheiro de transição: tinta fresca de Constituição, poeira velha de autoritarismo, esperança em estado bruto, como madeira recém-serrada. A democracia, por aqui, nunca foi uma estrada asfaltada: sempre foi ponte de tábua, feita na pressa e na coragem, passando por cima de rios fundos. E, em toda ponte, alguém precisa testar o peso — alguém precisa atravessar primeiro. O jornalismo é esse primeiro passo: o pé que vai na frente para ver se o mundo aguenta a verdade.
A imprensa é, por natureza, uma profissão de risco em tempos de normalidade — e um risco ainda maior em tempos de mudança. Porque toda mudança incomoda. E quem incomoda o poder costuma ser acusado de “exagerar”, “atacar”, “inventar”, “criar crise”. A imprensa não cria crise: ela acende a luz. O que cria crise é a realidade quando não se suporta ser vista.
Por isso, a ata que você apresenta — com sua precisão de papel oficial — é mais do que uma ata. É um pequeno monumento de linguagem. É um documento em que a burocracia, sem perceber, carrega um gesto épico: o gesto da classe que decide organizar sua própria defesa para continuar cumprindo a missão pública de informar.
A Assembleia Geral Extraordinária da Associação Profissional dos Jornalistas do Acre (AJA), na gestão “REAJA”, foi convocada com um ritual que diz muito sobre o tempo: edital publicado nos jornais “O Rio Branco” e “A Gazeta”, no dia 16 de outubro. Veja a cena: a própria imprensa anuncia a si mesma. É a palavra chamando a palavra. É o jornal impresso — aquele corpo de papel que amanhecia nas mãos das pessoas — dizendo à cidade: “tem algo importante acontecendo com quem conta a história de vocês”.
Às 20h30, a Assembleia é aberta. Na presidência, Edson Luiz Ferreira. Na secretaria, Elzo Rodrigues da Silva. Dois nomes que, naquele instante, valiam mais do que cargos: eram o ponto de partida de uma decisão coletiva. Edson abre a reunião dizendo o objetivo maior: decidir se a classe queria a transformação da Associação em Sindicato. E a resposta veio como se todos já carregassem essa certeza há tempos, apenas esperando a ocasião para declará-la em voz alta: aprovação por unanimidade.
Unanimidade, em democracia, não é uniformidade. Unanimidade, ali, era necessidade. Era instinto de sobrevivência profissional. Porque a missão do jornalista, embora pareça simples para quem lê a notícia pronta, é uma travessia diária por territórios hostis: pressões políticas, interesses econômicos, vaidades institucionais, ameaças explícitas ou sussurradas, precariedade de estrutura, urgência permanente. O repórter anda com a cabeça no presente e o coração no futuro: sabe que tudo que não for contado agora poderá ser distorcido amanhã.
O sindicato, então, aparece como aquilo que a cidade quase nunca vê, mas de que depende: a engenharia invisível que sustenta a ponte. Sem essa engenharia, o jornalista vira um indivíduo isolado, e indivíduo isolado é presa fácil. A democracia pode até ter Constituição, pode até ter urnas, pode até ter discursos — mas, se não tiver imprensa livre e protegida, vira teatro com plateia obrigada.
E é importante dizer, com todas as letras: imprensa livre não significa imprensa perfeita. A imprensa é humana. Erra, corrige, se debate, aprende. Mas é justamente essa humanidade — esse processo de apuração, confronto de versões, correção pública — que faz dela um pilar da democracia. Ditaduras não temem a imprensa “porque ela é perfeita”; temem porque ela é capaz de revelar, mesmo entre falhas, aquilo que o poder prefere esconder. A democracia não precisa de uma imprensa santa: precisa de uma imprensa viva, vigilante, profissional, sustentada por direitos trabalhistas e por organização coletiva.
Depois da decisão sobre o sindicato, o encontro avança para o que define qualquer instituição: o modo de existir. Não bastava dizer “vamos virar sindicato”. Era preciso decidir como. Edson Luiz propõe eleger uma diretoria provisória e adiar a aprovação do Estatuto e das mensalidades. E aqui se revela o temperamento político de uma classe acostumada a desconfiar de adiamentos — porque jornalismo vive de prazo e de consequência. A Assembleia não aceita. Por maioria, decide que tudo deve ser discutido naquela mesma noite.
Esse detalhe, que pode parecer apenas procedural, tem peso simbólico enorme. A classe escolhe resolver ali, olho no olho, sem empurrar para depois. Porque “depois” — na história brasileira — muitas vezes foi o nome elegante do esquecimento. E jornalista sabe: o que fica para depois vira pauta perdida, vira promessa de gaveta, vira arquivo morto.
Em seguida, decide-se quem pode votar: todos os presentes, desde que jornalistas, mesmo não filiados, participariam do pleito. Isto é de uma beleza democrática rara: é a profissão reconhecendo que o direito de decidir sobre o destino coletivo não pode depender de carteira assinada pela burocracia do momento. A notícia, quando estoura, não pergunta se você está em dia com a mensalidade. A urgência não consulta cadastro. O sindicato nasceria com o gesto aberto de uma redação: “entrem, a decisão é nossa”.
E então vem uma escolha que, por si só, é uma lição de democracia: voto secreto ou por aclamação? Vence o voto secreto. Numa classe que trabalha com a palavra pública, preserva-se, paradoxalmente, o direito ao silêncio individual no instante decisivo. O voto secreto é uma proteção contra medo, contra constrangimento, contra hierarquias invisíveis. É o mecanismo que impede que a democracia vire desfile. A democracia verdadeira acontece quando a pessoa pode escolher sem sofrer retaliação — e jornalista sabe o preço de uma retaliação.
Duas chapas se inscrevem, e os nomes das chapas são quase poemas sobre o próprio jornalismo.
A Chapa Um, “Entrevista”, encabeçada por Józimo de Souza, com Antonio Klemer (vice-presidente), Ilson Nascimento (secretário-geral) e Michelângelo Botto (tesoureiro). “Entrevista”: o jornalismo como gesto direto, como pergunta que atravessa a máscara, como tentativa humana de arrancar do mundo uma verdade que ele insiste em esconder atrás de discursos.
A Chapa Dois, “Primeira Página”, encabeçada por Sebastião Maia Pereira, com Pheyndews Carvalho (vice-presidente), Estevão Bimbi (secretário) e José de Souza e Socorro Camelo na 1ª e 2ª tesouraria. “Primeira Página”: o jornalismo como impacto social, como manchete que define o assunto do dia, como recado público de que o que está acontecendo não é boato — é realidade documentada.
O resultado final é apertado, como costumam ser as decisões que importam: “Entrevista” vence com 22 votos, “Primeira Página” tem 19, além de 2 votos em branco e 1 nulo. Esse placar é quase um retrato da imprensa em si: plural, dividida em visões, mas unida na missão. O fato de haver votos brancos e nulos também diz algo: mesmo na urgência, há hesitações, há protestos silenciosos, há discordâncias. Democracia é isso: não a ausência de ruído, mas a capacidade de conviver com ele sem quebrar a mesa.
E então a ata abre o que, para mim, é o trecho mais poderoso: a lista de presenças. Ali, o documento deixa de ser apenas registro e vira fotografia — uma fotografia sem imagem, feita só de nomes.
Participaram: Józimo de Souza, Hugo Conde, José de Souza Lopes, Marcos Afonso, Eisenhower Campos, Gesilda Mubárac, José Altino, José Souza, Marcus Vinícius, Mario Emílio, Lenilda Cavalcante, Eliane Sinhasique, José Leite, Raimundo Coelho, Argemiro Lima, Anibal Diniz, Agenor Mariano, Sergio Vale, Albertino Chaves, Nivaldo Paiva, Romerito Aquino, Tião Maia, Clélio Rabelo, Adonias Matos, Ivan Gonçalves, Raimundo Nonato, Francisco Chagas, Michelângelo Botto, Raimundo Fernandes, Pitter Lucena, Ivan Cláudio, Luiz Cordeiro, Carlos Augusto, Ely de Melo, Joana Mota de Oliveira, Gisela Maria, Antonio Jorge, Manoel Batista de Moura Neto, Antonio Klemer, Dilma Tavares, Elzo Rodrigues da Silva e Edson Luiz Ferreira.
Cada nome desses é uma esquina de Rio Branco. Cada nome desses é uma matéria apurada com pouca estrutura e muito peito. Cada nome desses é uma madrugada em que a cidade dormia e alguém estava acordado para que a cidade acordasse informada. É assim que a imprensa serve: quando ninguém aplaude, quando ninguém agradece, quando o perigo é maior do que o salário.
E é aqui que o papel da imprensa na sociedade e na democracia se impõe como uma verdade dura e bonita: a imprensa é a memória ativa do povo. Ela registra o que acontece para que ninguém, amanhã, tenha o direito de dizer “não foi bem assim” sem ser confrontado pelo arquivo. A imprensa é a certidão diária do tempo. Sem ela, a história fica à mercê de quem grita mais alto.
A imprensa é também um freio — e freio não é um inimigo do carro: é o que impede a tragédia. Democracias não morrem apenas por golpes militares; podem morrer por erosão lenta, por mentira repetida, por corrupção normalizada, por silêncio comprado. A imprensa, quando cumpre seu papel, é o barulho necessário contra a naturalização do absurdo.
Mas esse papel não é romântico. Não é glamour de filme. É trabalho duro, repetitivo, tenso. É carregar o peso de ser acusado por todos os lados: quando denuncia, dizem que persegue; quando publica, dizem que exagera; quando pergunta, dizem que provoca; quando cala, dizem que se vendeu. O jornalista vive numa corda bamba entre o dever e a pressão. Por isso a organização coletiva importa: porque o indivíduo isolado quebra — e a democracia, sem imprensa, quebra junto.
O sindicato que nasce ali, naquela noite, é uma espécie de escudo para a lucidez. Não para tornar jornalista “mais importante” do que outros trabalhadores, mas para reconhecer que seu trabalho tem uma função pública direta: garantir ao cidadão o direito de saber. E o direito de saber não é luxo: é oxigênio democrático.
Quando Edson Luiz encerra a Assembleia, e Elzo Rodrigues lavra a ata, há um instante invisível em que a cidade muda. Não muda na fachada das casas, não muda no asfalto. Muda na estrutura subterrânea da cidadania. Muda porque, naquele auditório, a palavra se organizou para resistir ao cansaço, ao medo e ao poder.
No fim, a ata termina com formalidade: “Rio Branco, AC, vinte e um de outubro de mil novecentos e oitenta e oito.” E assinaturas: Edson Luiz Ferreira – Presidente; Elzo Rodrigues da Silva – Secretário. Mas a democracia não termina com assinatura; ela começa.
Porque democracia, no fundo, é uma coisa frágil e cotidiana. Ela depende de instituições, sim — mas depende também de profissionais que aceitam o desgaste de sustentar o direito do outro. O jornalista é um desses profissionais. Ele trabalha para que a cidade não seja enganada com facilidade. Ele é um vigia do interesse público. E um vigia, às vezes, é odiado exatamente por fazer seu trabalho.
Por isso, 21 de outubro de 1988 não é apenas a data de uma reunião. É a data de um compromisso. Um compromisso da imprensa acreana com a sua própria dignidade — e, por consequência, com a dignidade democrática do povo do Acre.
Quando a imprensa se organiza, a democracia respira melhor. Quando o jornalista tem proteção, a verdade caminha com menos medo. E quando uma cidade aprende a respeitar quem pergunta, quem investiga, quem registra — essa cidade fica menos vulnerável ao grito, ao boato e ao abuso.
Naquela noite, em Rio Branco, a palavra não pediu favor. A palavra se levantou. E disse, com toda a simplicidade histórica de uma ata que vira destino: REAJA.
